Dirigente do PSOL no Piauí tece comentários sobre a posição de Luciana Genro em relação à candidatura de Marina Silva e o provável apoio de seu partido a essa candidatura
MUITOS PASSOS À FRENTE
Alexis Leite*
O título das parcas considerações a tecer logo abaixo é a última frase do instigante artigo da companheira Luciana Genro, intitulado “Apoio a Marina 2010: um passo atrás, dois passos à frente.”, uma referência ao texto de Lenine “Um passo em frente, dois passos atrás”, que tem como subtítulo “A crise do nosso Partido”. Farei a análise do discurso de Luciana sob o prisma da crise do PSOL. Partirei do resgate de frase da própria Luciana para em seguida estabelecer um comentário, não tão moderno, mas que faria qualquer acadêmico da alta, e média, Idade Média. Vamos ao destaque para depois finalizar numa compreensão de totalidade da idéia central do artigo.
1. “É bom ou ruim para o PSOL apoiar Marina? Eu estou convencida que não temos outra alternativa se não quisermos cair no isolamento e perder grande parte do capital político que acumulamos nos últimos anos.”
Aqui ela não explica porque perderíamos grande parte do nosso capital político acumulado nos últimos anos. Pior, ela trata o dito “capital acumulado” como dependente. De quem? Não é o nosso “capital acumulado” um diferencial do capital dominante?
2. “... que não receite fórmulas prontas a respeito da necessidade do socialismo e da revolução /.../ O grande trunfo que sempre tivemos foi Heloísa Helena.”
Ora, a fórmula para chegar ao socialismo não a temos, mas sabemos que é um outro modelo de produção, diferente do capitalismo. Então temos uma firme direção. O trunfo que temos não é Heloisa, mas o modelo socialista de produção que já é fruto de extensos e intensos estudos e práticas de coletivos humanos. Plínio, Babá, outro que acredite no socialismo poderá ser o porta-voz do nosso trunfo. Acabem com isso de trunfo A, B, C ou D. Isso é besteira e falta de perspectiva dialética de transformação do mundo humano.
3. “dou total apoio à idéia dela ser candidata ao Senado, nas circunstâncias atuais. Trocar 8 anos de mandato no Senado por 3 meses de campanha, num cenário eleitoral /.../ à uma luta implacável contra a corrupção.”
O PSOL, um partido extremamente complexo, com gente até no Piauí, um Estado historicamente dominado pelo coronelismo, inclusive agora com um petista à frente do Governo Estadual – que é o meu caso. Curvar-se diante de uma crença de que H substitui A, B, C, D, Zn, em cada grotão, em cada município, em cada Estado na luta contra a corrupção? Isso é desprestigiar o próprio termo PARTIDO. Lembro cazuza: “Brasil, mostra a tua cara...” Por favor, a insensatez desse argumento é tão visível que fico com vergonha de o mesmo ter sido colocado por uma liderança do PSOL. A insistência por H parece ser da mesma matriz que produziu o Lula.
4. “A conjuntura política não está muito fácil para os revolucionários e socialistas. Mas já passamos por piores. /.../ e tivemos também que fazer campanha e votar em Lula em 2002, quando ele já tinha até feito um compromisso com o capital (naquela tal “carta ao povo brasileiro”).
Os socialistas do mundo inteiro nunca tiveram a conjuntura a favor. Fizemos campanha e votamos em Lula – não como um erro. Fizemos isso como condição de continuarmos desmascarando o projeto da burguesia. Quem quiser que sinta que errou. Não foi o meu caso e de muitos outros que conheço. Habitar conscientemente a dialética presente em um evento a primeira vez não é erro. A segunda sim, por ser farsa. Com “Carta” ou sem “Carta” Lula e sua tropa nunca souberam o que é socialismo. Nunca possuíram a fé necessária para construí-lo.
5. “Soubemos romper com o governo Lula e com o PT no momento certo, não capitulamos para as pressões que as expectativas em Lula geravam em muitos – inclusive em alguns que felizmente hoje estão no PSOL”
É interpretação plausível que quem rompeu não fomos nós, foi o governo Lula e o PT onde se instalou. Subi nos palanque em Teresina (Piauí) com Lula e Wellington Dias. Nem um só dia deixei de propugnar a minha crença no socialismo nem fui cooptado pela corrupção presente em todos os locais em que estive presente como gestor público.
Não aceitei propina nem tampouco deixei de fazer as merecidas críticas ao modo petista de governar. Fui jogado fora do governo com um ato do governador dizendo apenas “a pedido”. O cara que “pediu” será o candidato a governador pela maior aliança de forças reacionárias existentes no meu Estado. Não pedi para sair do governo, fui expulso por não admitir fracassos e corrupção com o dinheiro público. Isso acredito, já é um bom começo para os socialistas. A saída do PT foi em bloco por nos sentirmos expulsos do mesmo em razão da visão de poder implantada.
6. Já o PSTU não teve a mesma sorte. /.../ construir um partido diferente do PSTU /..../ fazer avançar a luta socialista é nos ligarmos aos processos vivos de luta, processos que interagem e fazem avançar o nível de consciência do povo /.../ lutar /.../ totalmente descoladas do pensamento do povo. O discurso já ensaiado por Plínio de Arruda Sampaio, postulante a ser candidato do PSOL, é o oposto disso. É o discurso do PSTU.
Engraçado, aqui em Teresina quem deu sustentação à minha candidatura a prefeito, nas ruas, foi o PSTU. As maiorias dos militantes presentes nos eventos eram do PSTU. Boa parte do discurso veiculado nos meios de comunicação quem os forneceu foi o PSTU. Qual o problema? Somos diferentes sim. Boa parte dos militantes do PSOL não possui a fundamental crença no socialismo. Não conseguimos prepará-los - “A política é a religião profana.” Quem mais insistiu em estar perto do Povo foram os membros do PSTU. Em nenhum momento me senti diminuído, mas senti que devíamos investir na crença socialista. Aprendi com os companheiros do PSTU. Já o Plínio é um crente antigo que em nada desmerece em ser um Mestre de Cerimônia. Voilà,, Plínio. Socialistas Novos são os que me amedrontam. Parecem mais oportunistas em busca de uma “cadeira” no poder, que nem os marranos querendo salvar as próprias vidas.
7. “... nossa trilha /.../ um pequeno passo atrás em relação a 2006 /..../ eleições são para nós um momento tático /.../ os 7 milhões que votaram em Heloísa pois estes migrarão em massa para a candidatura de Marina. Alguém tem dúvida disso?”
O pequeno passo atrás é abdicar de candidatura própria. Marina falará pelo PSOL. Uma não-socialista dirá o que os socialistas querem. É piada. Só pode ser. Eleições são momentos táticos sim. Mas como posso imaginar tática sem estratégia? A nossa estratégia é socialista. Será a mesma repetição de dizermos que vamos ao Leste caminhando para Oeste. 7 milhões em migração para Marina. Quem? Os lutadores e lutadoras sociais do nosso país, mesmo os que não são socialistas não votariam em massa nela. Este seria o maior divisor de crenças que teríamos nos últimos anos. Querem testar? Comecem por mim. Já são apenas 6.999.999 votos. Já não dá a cifra esperada. A minha certeza começa comigo, não está apenas no papel.
8. ”... o melhor para o PSOL é estar com Marina /.../ Setores da burguesia e do PT vão atuar para mantê-la longe de nós. /.../ luta ambiental com a luta contra a corrupção e pelos direitos dos trabalhadores.”
Ora, se Marina fosse uma crente ela mesma fugiria dos “setores da burguesia”. O PSOL é agora o Salva-Vidas de Marina. Tão ingênuo, tão cretino, tão deslavado. Ai, ai, ai. Luta ambiental sob a custódia capitalista? O Planeta já está detonado pelos caras que cercam ontem e hoje a Marina. Marina seria apenas a cara de Lula para o prêmio inglês.
9. “ teremos melhores condições de atravessar esta campanha eleitoral /.../ até ultrapasse o simbolismo criado por Heloísa nas eleições de 2006 /.../ Dilma não é Lula, e os espaços para a esquerda socialista vão se ampliar. As lutas sociais tendem a se intensificar, e nós somos uma referência. Com Heloísa no cenário nacional /.../ um avanço concreto da luta socialista /.../ muitos passos à frente.”
O MES tem como Cavalo de Batalha Heloisa. Foi o que restou para chantagear a militância desprovida da crença socialista. É bom que se entenda de uma vez por toda que o Capital do PSOL é a crença socialista. Temos diversas pessoas com gabarito e conhecimento de Brasil e mundial para travar esse debate. Não somos reféns desse pretenso capital H.. Diferente do PT deveríamos construir vários nomes para a disputa tanto em âmbito nacional como local. É importante que esse momento nos desgrude dessa dependência de “7 milhões”, “nome nacional” etc. Isso é um falso capital que nos atrasa e nos mantém presos por nossa própria vontade. Aqui em Teresina servimo-nos do nome de Heloisa, mas podemos nos servir de outros nomes para pior ou para melhor. Desde que seja nosso. As lutas sociais se intensificam a partir das bases e dos desafios apresentados. Outra perspectiva é ilusória e tremendamente passageira. Vamos à luta com o que somos e com o que podemos. Isso é real.
Considero que a “Carta de Carlos Nelson Coutinho”, de modo gentil como convém a companheiros/companheiras, dá conta de uma resposta satisfatória à demanda da companheira Luciana.
* Alexis Leite é Presidente Regional do PSOL - Piauí
Veja a Carta de Luciana em: http://www.lucianagenro.com.br/2009/11/apoio-a-marina-em-2010um-passo-atras-dois-passos-a-frente/