31/10/2006

Resultados deturpados das urnas
Eduardo Almeida

No entanto, as eleições não se medem apenas em números. Elas expressam, ainda que distorcidamente, a realidade das classes no país, e precisam ser avaliadas também no que toca à qualidade das relações dos distintos setores sociais com o governo eleito.
E aí as coisas ficam bem diferentes do que em 2002, quando uma enorme instabilidade financeira no país, acompanhando as eleições, pela possibilidade de vitória de Lula. O dólar subiu, o risco Brasil disparou. A burguesia, apesar de todas as garantias dadas por Lula - que incluiu o compromisso em manter os acordos com o FMI -, sentia-se insegura com a eleição do primeiro governo de Frente popular da história do país.
Por outro lado, a eleição de Lula despertou uma enorme expectativa entre os trabalhadores. Pensavam que Lula mudaria a vida de todos. Afinal, depois de vinte anos, finalmente Lula chegava ao poder.
Em 2006 foi tudo diferente. No mercado financeiro imperou uma calmaria completa, com o dólar sem nenhuma alteração e a Bolsa em alta na última semana da campanha. Depois de quase quatro anos de planos neoliberais e recordes nos lucros dos bancos, não existe mais nenhum temor do grande capital com a reeleição de Lula.
Entre os trabalhadores e a juventude, apesar do voto majoritário em Lula, reinou uma frieza completa. Nenhum entusiasmo, nem disposição para a campanha. Os comícios foram todos pequenos: o último antes da eleição em São Bernardo e o de comemoração da vitória, na Avenida Paulista, tiveram menos de quatro mil pessoas.
O primeiro mandato de Lula não mudou a vida das pessoas, como se esperou por vinte anos. A esperança acabou quando Lula manteve o mesmo plano econômico de FHC. Os escândalos de corrupção acabaram com a última bandeira que sobrava da “diferença” do PT: a “ética na política”. O governo de Lula era apenas mais um, e a sensação de que “é tudo a mesma coisa” se generalizou. Mas como se combinou a Frente Popular com crescimento econômico, sustentado pelo crescimento mundial, os trabalhadores, majoritariamente votaram em Lula “porque ele vem de baixo”, e “se preocupa com a gente”. Atribuem à origem social de Lula aos preços baixos dos alimentos, ao Bolsa Família, ao reajuste do salário mínimo etc. Mesmo sabendo que “todos são corruptos”, os trabalhadores votaram em Lula por estas pequenas concessões garantidas pelo crescimento econômico.
Ao contrário de 2002, portanto, as eleições de 2006 revelam que o grande capital confia em Lula e que as massas já não têm as esperanças de mudanças. Votaram nele para manter as pequenas conquistas, sem nenhum entusiasmo. Isso tem uma enorme importância para se pensar o futuro.

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