03/02/2010

FSM
Mesa sobre Haiti anuncia que Conlutas já arrecadou mais de R$ 150 mil em doações

A campanha de solidariedade classista as organizações dos trabalhadores haitianos foi a principal atividade da Conlutas no Fórum Social Mundial, realizado de 28 a 31 de janeiro em Salvador. Debates, marcha e a presença no encerramento do Fórum com esta bandeira marcaram o empenho na campanha de todos ativistas e militantes.

A mesa “Haiti: ação humanitária ou ocupação militar – a luta do povo haitiano”, parte das atividades organizadas pela Conlutas e pelo Quilombo Raça e Classe no Fórum Social Mundial, na manhã de domingo (31), emocionou os cerca de 500 presentes ao evento.

A mesa foi composta pelo membro da coordenação nacional da Conlutas, Zé Maria de Almeida; um representante do Quilombo Raça, Elias José, o ativista haitiano Frank Seguy e o estudante Otávio Calegari, que estava no Haiti no momento do terremoto. A atividade foi apresentada pelo representante do GT e Negros e Negras da Conlutas Julio Condaque e pela estudante Ilze, da Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (ANEL), da Bahia.

Logo no início, Zé Maria anunciou com a voz embargada que a campanha de arrecadação de doações para os movimentos sociais e de trabalhadores haitianos, principalmente para a organização Batay Ouvriye, havia superado as expectativas até Fórum Social Mundial. “Dos R$ 50 mil que esperávamos recolher, já atingimos quase R$ 200”. Nesse momento, os aplausos ecoaram no teatro Universidade Estadual da Bahia (Uneb).

Apesar do êxito da campanha emergencial, ele chamou a atenção que agora o papel de cada um seria arrecadar doações junto aos trabalhadores para levar essa campanha de solidariedade de classe internacional para a base. Ele citou como exemplo os trabalhadores da GM de São José dos Campos, que discutem desconto de um dia de salário.

Zé Maria, além de retomar o histórico da Conlutas na luta contra a ocupação militar do Haiti pelas tropas da ONU, reforçou a necessidade de que, além da campanha classista de solidariedade, é necessário intensificar a campanha contra a ocupação militar. “Se o imperialismo norte-americano e o governo Lula estivessem preocupados com a sobrevivência do povo haitiano, enviaram médicos, enfermeiros, bombeiros e não tropas armadas”.

O membro da Conlutas alertou que esses governos estão aproveitando a tragédia pela qual está passando o povo haitiano para intensificar a ocupação e posteriormente controlar ainda mais e aprofundar a exploração do povo haitiano.

Representante do Quilombo Raça e Classe, Elias José, falou da importância da campanha de solidariedade do movimento negro brasileiro. “Não somente com a doação de entidades, mas nos locais de trabalho, nas nossas favelas, cujo povo sofre também da opressão e racismo por parte dos governos. Ele criticou ainda as organizações tradicionais do movimento, que ao invés de denunciar a ocupação e opressão ao povo negro haitiano, se colocam ao lado do governo Lula, como fez o MV Bill e o grupo AfroReggae. Elias também criticou a omissão de outros grupos do movimento negro em realçao à campanha de solidariedade. “Nós não vamos esperar por eles, vamos nós mesmo ajudar os trabalhadores haitianos”, disse.

Já o estudante, Otávio, que estava no Haiti no dia do terremoto com um grupo de pesquisa da Unicamp, contou a sua experiência da tragédia e algumas impressões de ONGs como a Viva Rio e a superexploração que presenciou aos trabalhadores haitianos. Um de seus comentários foi que diferente do caos de saques e violência alardeado pela mídia, o que ele presenciou foi a solidariedade de um povo que tentava se ajudar para conseguir água, comida e água e para resgatar os corpos.

Para Otávio ONGs, principalmente a Viva Rio, com a qual teve mais contato não cumprem um papel de ajuda efetiva ao povo haitiano, apesar de toda a verba que recebem. “Eles disseram que empregavam 180 funcionários, ao eu questioná-los porque pagavam um salário tão baixo, eles disseram que era para não inflacionar a economia local”.

Otávio também comentou que uma das lembranças do povo haitiano sobre a Minustah (tropas da Onu presente no país) do massacre de 2006, em Cité Soleil, onde foram assassinadas mulheres grávidas e crianças. “Como se esses salários pudessem inflacionar a economia”, disse.

Sobre as multinacionais, denunciou a superexplorando da barata mão-de-obra haitiana. Ele citou o exemplo de uma empresa coreana do ramo têxtil que que paga salários baixíssimos para posteriormente exportar seus produtos, principalmente, para os Estados Unidos e para o Canadá.

Há dois anos vivendo no Brasil, o haitiano Frank Seguy resgatou a história do Haiti para explicar melhor suas tragédias. Relembrou os processos de colonização do país e da presença das burguesias marcados por roubo de terras e expulsão dos camponeses para as cidades sem nenhuma infraestrutura. E o quanto esse processo destruiu o meio ambiente daquele país. “Somente a dominação francesa destruiu 45% do meio-ambiente no Haiti”, disse.

Frank agradeceu e reforçou a importância da campanha de solidariedade organizada pela Conlutas, pois ele não acredita na “ajuda humanitária dos países imperialistas.“Já passamos por fortes furações que destruíram cidades também e, apesar da tal ajuda, hospitais, escolas, nem moradias foram reconstruídas”.

O haitiano também defende a campanha de denúncia da ocupação militar promovida pela Conlutas. Para ele, o governo norte-americano, que era odiado no país, se aproveitou da simpatia do povo haitiano pelo Brasil para ocupar o país com tropas brasileiras. “Além de adorar o futebol brasileiro – os haitianos torcem pelo Brasil na copas do mundo –, por verem nos times brancos e pretos jogando juntos, ele acreditam que não tem racismo no Brasil”, comentou falando do sentimento dos haitianos pelo Brasil.

Frank denunciou ainda o papel do Fundo Monetário Internacional (FMI) que a cada catástrofe ao invés de doar verbas, faz novos empréstimos ao país aprofundando a dependência econômica do imperialismo.

O mesa terminou com uma única voz, dos cerca de 500 presentes: “O povo do Haiti é nosso irmão, solidariedade não é ocupação!”

Redação Conlutas

Foto: Diego Cruz

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