21/08/2008

Dirigente do PSOL da Paraíba protesta contra o financiamento de campanha de Luciana Genro
o diretório do PSOL de Porto Alegre aceitou doação de R$ 100.000,00 da GERDAU:


Caros camaradas,

No último dia 14, foi apresentado pelo MES e aprovado por maioria na Executiva Municipal de Porto Alegre a proposta de aceitar um financiamento de R$ 100 mil do grupo Gerdau para a campanha de Luciana Genro.

Evidentemente o fato é gravíssimo se considerarmos que este foi um dos elementos constitutivos da degeneração política, da adaptação institucional e à ordem do Partido dos Trabalhadores. Não por acaso há inúmeros intelectuais e correntes de pensamento na esquerda brasileira que consideram um fator chave na virada do PT o momento em que as campanhas começaram a aceitar financiamento de bancos e empresas capitalistas.

A questão é grave porque não compromete apenas a candidatura de Porto Alegre, compromete o conjunto do partido, inclusive inúmeras e importantes campanhas como a de Chico Alencar no Rio de Janeiro, que tem como um dos seus diferenciais a questão do financiamento de campanha, usado para desmascarar por exemplo, candidaturas como a de Jandira Feghali (PCdoB), que vai procurar levantar R$ 5 milhões de reais na indústria naval do Rio de Janeiro, ou candidaturas como a de Ivan Valente, que tem como um dos seus eixos de campanha a defesa do financiamento público das campanhas eleitorais.

O grupo Gerdau é o 13º maior produtor de aço do mundo, com forte atuação nas áreas de construção civil e agropecuária. Têm fábricas e negócios em 13 países além do Brasil, ações cotadas nas bolsas de São Paulo e Nova York. Possui no Brasil 45 mil trabalhadores.

Não estamos falando de pequenos ou médios comerciantes, ou microempresários. Estamos falando de um dos setores da burguesia brasileira (o grupo é sediado no Rio Grande do Sul) que mais entrou no processo de internacionalização da globalização capitalista.

A decisão da maioria da executiva do PSOL de Porto Alegre fere frontalmente a carta compromisso dos candidatos do PSOL aprovada por consenso na 2ª Conferência Eleitoral do partido. Em item em 6 ela define claramente:

"6 - Estimular, para as campanhas, as doações cidadãs de pessoas físicas, examinando criteriosamente eventuais contribuições de pessoas jurídicas, excluídas as vedadas pelo estatuto partidário - bancos e multinacionais - e as de empresas com contenciosos trabalhistas e ambientais; (negrito nosso")

Só para ficar neste aspecto o grupo Gerdau tem ou teve contenciosos trabalhistas e ambientais registrados inclusive nos balanços da empresa, como os ocorridos em fábricas suas no Canadá e EUA, além de contenciosos trabalhistas no Brasil, denúncias de sindicato, entrevistas do seu presidente defendendo a reforma trabalhista e etc. Estamos enviando em anexo documentação sobre isso.

Os argumentos levantados por dirigentes do MES de que esta questão não é de princípio, que não muda o que vamos fazer, porque o partido controla tudo, o dinheiro e a campanha desconhecem inclusive a história recente da esquerda e as fontes da sua degeneração histórica, para dizer o mínimo.

Aceitar financiamento de grandes grupos capitalistas é o início da domesticação, é o início da perda de independência política do partido diante do Capital, pois nenhum capitalista joga dinheiro pela janela ou financia políticos e partidos sem se importar se está financiando seus algozes, trata-se de um mecanismo brutal de pressão econômica sobre o partido e sobre sues dirigentes e figuras públicas que vão, dessa forma, amenizando discursos, rebaixando programa, pela simples razão que quando se aceita este tipo de oferta começa-se a entrar na rota dos compromissos. Luis Eduardo Grenhalg foi um paladino em congressos da classe trabalhadora na defesa da famosa Carta ao povo brasileiro de Lula em 2002, dizia que aquilo era para enganar o FMI, que depois no poder, eles iam fazer o que queriam começando por pegar o FMI. Sabemos bem onde terminou o governo Lula e onde foram parar personagens como Grenhalg. Simplesmente isto não existe porque o grande capital não funciona assim e muito menos está sendo enganado.

A repetição na reunião do diretório de Porto Alegre de argumentos similares aos usados por dirigentes do PT para enganar os militantes (e talvez a si mesmos) é alarmante. Pois quem está cedendo é a candidatura que aceita o ônus de ter que defender este tipo de financiamento de um grupo capitalista que quer assumidamente acabar com a legislação trabalhista atual. Não é o grupo Gerdau que está vindo em direção ao socialismo, trata-se do contrário.

Informamos que consultamos os dirigentes das demais correntes da executiva: Poder Popular, APS e Enlace e todos se pronunciaram contrários a esta decisão de Porto Alegre e a consideraram equivocada. Isto é importante porque abre a possibilidade de se reverter esta gravíssima decisão de aceitar o financiamento do grupo Gerdau e também porque abre um espaço maior no partido para fazer esse debate e condenar de forma mais ampla este tipo de prática política que os dirigentes do MES querem trazer para dentro do PSOL. De toda forma, não sabemos se ainda será possível reverter a decisão, nem se dará tempo, nem se haverá uma reunião de executiva, embora formalmente a maior parte dela discorde da decisão tomada em Porto Alegre.

David Lobão – Vice Presidente Estadual do PSOL/PB

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